Os heróis precisam de dois tipos de prostitutas para coroarem sua carreira de glória: as mulheres de pernas gordas e cinturas finas que lhes aquecem as camas nas noites frias de inverno insular os escritores senis e aduladores que descrevem os feitos viris diurnos.
Desses dois tipos ele tinha asco, uma espécie de nojo infantil que lhe vinha à tona, mas que sabia imprescindível à sua sobrevida. Quanto às mulheres, muito embora lhe enojasse o vai e vem com que elas se dispunham para ele, ele sabia que não poderia viver sem diariamente deitar a boca entre suas pernas e sugar dali o suco fértil da vida.
Já os escritores, embora ele lhes precisasse para enaltecer seus feitos, tinha ódio ainda maior, com repulsa ainda maior. Se visse um escritor pela frente lá ia e lhe metia a mão na cara.
Ele andava pelo centro da cidade com sua enorme espada medieval às costas, trajando suas roupas bárbaras, estilo Conan, o cimeriano. Estava na cidade havia muito mais tempo do que a memória conseguia lembrar, em busca da mulher perfeita.
Mas nada para ele era bom e puro o suficiente. E quando era puro, o era demais.
E lá ele ouvia uma voz feminina cantando uma canção e corria de pronto com a espada em pé. Mas depois de uns tragos, bate-papo e quinze minutos de intimidades ele se decepcionava e via que novamente se enganara.
Era difícil a vida moderna, era impossível o heroísmo em tempos assim.
De outra feita ouvia um grito feminino e ia novamente atender com a espada na mão. Esmagava com fúria impiedosa o inseto que consistisse ameaça e novamente atacava oferecendo bebidas e intimidades.
Nova decepção.
E, de repente, ele se virava e logo se surpreendia com mais um deles, mais um daqueles escritores o observando e tomando notas.
“Filho da puta”, gritava, e saía correndo atrás do sujeito que desesperado largava caneta, papéis e tudo mais em sua fuga.
E assim ele viveu muitos e longos anos, sem que jamais sua busca tenha encontrado fim nem seu espírito encontrado descanso. Já velho e amargurado, cego pela catarata, andava pela praça quinze à esmo lamentando as fraquezas da velhice e a tristeza da idade, que nem a espada lhe permitia mais erguer.
Morreu então numa sarjeta e foi recolhido pela população local, que lhe rendeu grandes festas e homenagens, num banquete que durou quinze dias e onde mil trezentas e noventa e quatro mulheres foram convocadas para entreter os convidados com seus corpos bezuntados à óleo. Os poetas e bardos alardearam ao mundo todo seus grandes feitos e os escritores se puseram enfim a compor o grande épico sobre ele. E assim pode ele, em sua glória, ser profanado com os elogios daqueles a quem mais odiava.
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One Comment
Esse aqui está excelente. Mulheres, violência gratuita, literatura e a velha Floripa de fundo. Muito bom!!!