Meus heróis

Johnie BlackA trindade é conhecida por seus cães de rua. Verdadeiras matilhas.

A maioria chega bonito e com pelo brilhoso, para com o tempo ficarem magros e doentes.

Andando por aí em bando, ou a sós, eles são meus verdadeiros heróis, onde cada dia é uma luta pela sobrevivência, errante, nômade, a busca por comida e disputa por território. Como não possuem nome nem história, resolvi nomeá-los e dar um passado a cada um deles.

Esse aqui dizem que tem um dono, que o chama de pretinho. Mas vive na rua, junto com os demais. Costuma circular, passear preguiçosamente no fim das tardes em frente ao doutor Buffet e urinar nos muros do Granville.

Já viu passar os anos de juventude e escolheu para si o nome de Johnie Black, por causa da marca de seu uísque favorito. Gosta de tomar seu uísque 12 anos acompanhado de um leitinho quente e um chinelo felpudo para roer.

Quando a embriaguez já é suficiente gosta de se deitar preguiçosamente na calçada, sentindo a brisa do fim de tarde e espiando por baixo das saias das jovens que passam.

Fisiologia

A trindade digere tudo: concreto, vidro, aço, pessoas.

É o estômago e intestino da cidade, tudo por aqui passa

e é transformado enquanto prossegue o destino tortuoso de suas ruas.

Em dias como hoje,

de trânsito constipado,

surge a pergunta:

se as ruas são as tripas,

os carros o que são?

Fluidades aquosas

Como toda anotação de bebum, esse blog corre o risco de virar um diário de histórias de boteco, por isso venho me controlando e falando de amenidades. Mas como tem tempo que não falo de nenhum bar, esse post não será sobre os filhos da puta que trafegam num dia como hoje dando banho nos pedestres da calçada com a água imunda da rua, que mistura água da chuva com esgoto devido à incompetência da CASAN que deixa a agua fluvial entrar na rede do esgoto a ser tratado, fazendo com que os esgotos transbordem e jorrem pela tampa, criando verdadeiros chafarizes de merda nos dias de chuva.

Não, esse post é sobre o “fluidades aquosas”, um boteco simpático que só vendia vinhos e funcionava ali perto da escola da polícia. Também atendia pelo nome de Novidades Líquidas e tinha um rol de personagens incríveis, como o homem planária, o bebum acrobata e a adolescente tarada.

Essa última, sem dúvida a personagem mais interessante, tinha lá pelos seus 15 anos, cabelo curtinho, roupas justas e medidas perfeitas. Era daquelas que fazia a conversa parar quando entrava no bar, sempre lotado de gente e cheio de fumaça. O teto era tão baixo e a fumaça dos cigarros tão densa, que podia-se fatiar a fumaça e servir pedaços, como se fosse um pudim.

Um dia conversava eu e meus velhos amigos numa mesa e ela se aproximou. A fumaça parecia abrir o caminho com deferência para que ela passasse e a respiração de todos na mesa parou quando ela nos abordou e inicou a conversa casual:

- Vocês tem fogo?

Respiração presa, mentes confusas sem saber o que dizer, o bar inteiro parado no tempo, congelado, esperando um desfecho da situação. Algo precisava ser dito. Alguém precisava dizer algo. Não sei porque esse alguém acabou sendo eu que finalmente disse:

- Não, minha filha, já acabou há muito tempo!

Ela olhou ressentida sem entender direito e foi embora, levando consigo toda sua perfeição que contaminava o momento. Eu também nunca soube porque disse aquilo, se foi o desespero de precisar responder algo, não importando o quão estúpido fosse, se mero desabafo ou uma piada doentia brotada em meu sub-consciente que até hoje nem eu entendi.

A bar fechou, nunca mais a vi, mas ao menos algum resquício dela na memória restou, tornando suportável a vida, apesar dos banhos de merda com água de chuva em dias como hoje.

A grande fuga

Esse é um nome clássico de um filme.

Mas aqui não falaremos do filme, falaremos de outra fuga da cadeia, dos irmãos Dário Berger e Fernando Elias. Este se escondeu num buraco por dois dias, igual ao Saddam, para fugir da justiça. Já o outro conseguiu, no silêncio da imprensa, tirar seu nome dos réus da Moeda Verde.

Enquanto os prefeitos irmãos metralha fogem impunes e casebres irregulares são derrubados, não começaram ainda as obras de destruição do shopping do mangue. Está na hora de iniciar a campanha: demolição já!

xilindró

um sujeito comprou e demoliu uma quadra de casas ali na frente da penitenciária.

vai sair um mega-empreendimento.

ninguém da comunidade sabe quando a penitenciária sai dali.

se perguntar a deputados ou vereadores, também não sabem.

prefeito e governador, nem fazem idéia.

líderes comunitários, menos ainda.

mas aquele sujeito sabe.

para ele, isso é apenas um dos custos programados em seu empreendimento.

ele já tem

com exatidão

a data em que os processos e projetos serão julgados e aprovados

e o gráfico com distribuição em curva normal do quanto de propina vai gastar mês a mês,

com cada autoridade do legislativo,

do judiciário

e do executivo.

para ele, isso é apenas uma etapa do cronograma.

ele sabe.

Cumarina, cumarina, tá no meu pulmão

cumarina

ok, eu sei, eu sei, o título está errado, era para ser nicotina, você deve estar pensando, afinal é assim na música dos replicantes.

Mas, infelizmente, não estamos numa música dos replicantes, e o venenninho que nos devora é a cumarina, não a nicotina (bem, ambos, para muitos). Mais especificamente um derivado dela , a Warfarina, já que no rótulo acima aponta vitamina K como antídoto, o que é característico da Warfarina.

E quem está nos ministrando o veneno? Ninguém menos que aquele famoso shopping que já nos brindou com escândalos de corrupção, suborno de autoridades ambientais e municipais, aterramento e devastação do mangue.

Já repararam no visual clean e asséptico do shopping? Não só dentro, mas também fora? Nem passarinho tem por ali.

Não, não é uma aversão ao shopping que os bichos sentem. Isso é o que eu sinto. É o envenenamento por Warfarina mesmo que os está matando. Quem ainda não teve o prazer, pode reparar na próxima visita as discretas caixas plásticas pretas ao redor do prédio, a cada 20 metros, totalizando cerca de 25 ao redor.

São caixas de veneno. 1 miligrama de veneno por kilograma do animal já é suficiente para matar. Mata por sangramento interno. E como a morte não é imediata, o animal volta para sua toca em sofrimento, onde morre longe da vista de todos.

É claro que sendo seu lar o mangue, é logo comido por outros animais, que assim também adquirem o veneno.

Ou seja, os bandidos do iguatemi não só destruíram parte do mangue quando construíram o caixotão hediondo que enfeia a paisagem, mas continuam destruindo hoje em dia envenenando os animais e aniquilando o ecossistema do mangue. Talvez seja parte de um plano para matar tudo de vez e assim ter um pretexto para asfaltar o mangue e virar tudo estacionamento deles. Ou talvez apenas canalhice impensada mesmo.

Pense nisso na próxima vez que for comprar algo e compre em outro lugar! :)

hoje

eu não sei no resto da cidade.

nem no resto do estado. Ou do país, ou do mundo.

Mas aqui na trindade está quente pra caramba.

Os asfalto parece começar a ficar mole, prestes a derreter.

A visão turva. Vapores sobem do solo para o ar, como nos desertos.

Os funcionários dos mercados se encostam cansados nos pilares próximos aos ventiladores.

O trânsito nas ruas é quase nulo. A trindade abandonada às moscas.

Mas nem mesmo as moscas conseguem passear nesse calor. Pincipiam incertas um vôo e logo caem no chão, lagarteando ao sol.

Caboclo Ventania

Sempre que passo pela frente da tenda do Caboclo Ventania, próximo ao terminal da trindade, sinto uma espécie de alegria. É verdade, enfim, que existem alguns brasileiros nessa terra.

Para mim os brasileiros sempre foram um povo exótico, majoritariamente formado por cariocas viciados em samba e futebol, paulistas pagodeiros e baianos pulando axé. Saiu disso, já não é mais brasil, ao menos não o brasil que passa na tevê.

Mas principalmente sábado a noite, a folia corre solta na tenda. Tambores tocam sem parar, cantorias, uma euforia que deixa qualquer carnaval no chão. Acho bonito aquilo. Mesmo não sendo alguém religioso, acho bonito aquela loucura exótica. Então ligo a tevê e sou confrontado com a aparição abominável da propaganda de procissão no centro, aquela figura mofada, com rosto sofrido, espalhando uma moral que prega o sofrimento humano, em prol de uma improvável salvação extra-terrena.

Acho triste isso, triste demais. E o mais triste é que não são só os veículos de mídia privados (embora concessões públicas) empenhados em divulgar uma religião em detrimento de todas as outras: o Estado, que deveria ser laico, também comparece injetando dinheiro. É uma falta de vergonha completa, o velho saque dos cofres públicos milenarmente executado pelos católicos.

Daí lembro da tenda do Caboclo Ventania, que nunca roubou dinheiro público como a ICAR e vai de vento em popa. Então concluo que a trindade é exemplo para o país. E como tem dinheiro público também na reforma da catedral, e o estado é laico, é inevitável concluir que o correto seja ela passar para as mãos do estado e ser usada por todos os cultos e crenças, afinal foram todos que financiaram, ainda que involuntariamente, aquela reforma custeada com dinheiro do Estado. Caboclo Ventania, ainda vamos pregar umas galinhas no altar daquele prédio mofado que enfeia o centro, chamado de catedral! É a trindade expandindo seu domínio. Tam-tam-tam (música de suspense).

só delírio agora

Geralmente de madrugada tento curar minha insônia tomando um pileque e saindo para da uma volta.

Eu sou aquele bêbado que vaga por aí das 3 às 5 da manhã.

Eu sou aquele bêbado que passa a noite na chuva.

Eu sou aquele bêbado que dorme embaixo do banco do ponto de ônibus.

Eu sou aquele bêbado que não consegue andar na calçada esburacada sem cair, por isso vem zigue-zagueando pela Lauro Linhares.

Eu sou aquele bêbado que tira a roupa e fica rolando no chão na frente do cartório para sentir a terra.

Eu sou aquele bêbado que fica no boteco até fechar, então vai para outro.

Eu sou aquele bêbado que acaba a noite abraçado aos cachorros da matilha do bairro.

Eu sou aquele bêbado que já fez amizade com os seguranças noturno de supermercados.

Eu sou aquele bêbado que segue alucinado as curvas daTrindade, imaginando as ruas se enroscando em seu corpo e transando febrilmente.

Eu sou aquele bêbado que nunca lembra da noite anterior.

Eu sou aquele bêbado que está há muitos dias sem beber e vai tomar um trago logo agora, assim que acabar de escrever isso.

Medo e delírio em Floripa

Foi depois do filme do michael moore, bowling for columbine, que percebi o quanto somos cercados, bombardeados e guiados pela máquina de inventar medos. Desde absurdas abelhas africanas que ameaçariam o continente até o histérico bug do milênio, sempre tem uma ameaça invisível da vez.

Principalmente a classe média parece ser presa fácil desse tipo de raciocínio. No início dos anos oitenta a destruição do mundo seria a AIDS. Lembro do meu pai sempre me dizer para ter cuidado ao ir em um banheiro público para não encostar num mictório, pois poderia pegar AIDS. Era algo assim, instantâneo, na hora. Vivíamos em medo de sermos pegos desprevenidos e tocarmos numa pedra contaminada e virarmos crianças com AIDS, o que inevitavelmente nos tornaria também gays, que era algo que nem sabíamos o que era.

Aqui na Trindade um caso estranho ganhou as manchetes do jornais da época, alimentando ainda mais a paranóia pequeno-burguesa. Parece que um grupo de universitários começara a organizar orgias nos apartamentos do bairro. Até aí tudo normal. O problema é que parece que os organizadores haviam se descobertos com AIDS e faziam isso para contaminar todo mundo propositalmente. Foram uns 4 ou 5 presos, várias semanas de mídia focando sobre o assunto e nunca sobre o quanto daquilo era verdade e o quanto era mentira deslavada, boato que ajuda a vender jornal.

Só o que lembro de certo foi da sugestão de um leitor da época que mandou carta a um jornal sugerindo a mudança de nome do bairro para Trindaids. A piada circulou, e por um bom tempo o nome ficou popular. Estranhamente, acabou não colando e caiu em desuso…