sob nova direção

a partir de hoje esse blog passa do regime diário para semanal, isto é, um post por semana, provavelmente aos fins de semana.

Nota de já vai tarde

Uma característica pitoresca de Santa Catarina, resquício pré-republicano, é o fato de a mulher de um ex-secretário ter herdado dele o cargo de secretário da educação, como se fosse uma posse familiar hereditária, um título feudal.

Acontece que os cargos mais prestigiados são aqueles que tem mais dinheiro, fazem mais obra. Quando mudou o mandato do mesmo governo, ela foi rebaixada da secretaria segundo mais desprestigiada, a educação, para a mais desprestigiada de todas, a de cultura.

No loteamento político descarado do qual ela fazia parte, não fez nada a não ser tocar tudo na condição de burocrata . Não democratizou as escolas, que continuam com diretores indicados pela politicagem, ao invés de eleitos pela comunidade, nem moveu uma pedra para transformar a penitenciária em centro cultural, anseio da comunidade da trindade.

É alguém que não vai fazer falta nenhuma.

burrice ou mau-caratismo?

eu não sei qual dos dois está por trás da tolerância zero contra bares em florianópolis, fechando tudo lá pelas duas.

outro dia vi se encontrarem num bar da trindade, lá pelas 3 da manhã, estudantes e profissionais da área de programação e design, que no fim da noite chegaram a um projeto para aglutinar o pessoal da área no país.

Catzo, viva o bar! Sem o bar o encontro e o projeto nunca começariam nem iriam pra frente. O bar é a única coisa que ainda funciona no país.

E o pior é ver um policial ter a desfaçatez de querer defender a medida absurda na tevê dizendo que o numero de ocorrências tinha caído de 7 para 6 no período, ou seja cerca de 17%.

Errado, qualquer um que conheça estatística sabe, e no próprio manual de segurança pública de São Paulo (de onde os tiras daqui chuparam a idéaia) há o alerta: recomenda-se no mínimo 100 elementos na amostragem para se fazer uma estatística, sendo que com menos de 25 elementos a estatísca é impossível e qualquer porcentagem é sem sentido, sem relevância.

Fica no ar a dúvida se eles não leram o documento direito, ou sabem muito bem que estão mentindo à população, mas precisam de alguma forma justificar o injustificável.

A arte de beber só

Eu confesso que sou um bebedor solitário.

Gosto de ir a bares mais do que beber em casa, mas gosto de ficar a sós numa mesa, olhando o movimento. O lado ruim disso é que sempe aparece alguém que acha que você quer bater papo.

Uma vez, no antigo bigode, que ficava no posto de gasolina e se chamava frenético’s bar, quando o bar ainda era tocado pelo pai do atual dono, um bebum que estava de plantão naquele dia começou a se aproximar da minha mesa, doido pra puxar conversa.

Grudei meus olhos da tevê, sem me virar um minuto, para evitar o diálogo. Ele se foi, voltou, foi de novo, voltou de novo, sempre me cuidando, tentando alguma brecha para puxar um assunto.

Por fim, ele viu que eu não ia olhar para ele e me abordou:

— Ei, ei! Gosta disso aí?, inquiriu apontando pra tevê.

Eu nem estava prestando atenção, mas era um daqueles sexta sexy que passava na época, cheio de mulheres de peito de fora que transavam de calcinha com caras de cueca… nunca entendi aquilo.

— É mulher, não?, respondi ao sujeito, sem ter o que dizer.

— Éééé…, ele disse e foi embora.

E mais uma vez fiquei livre e a sós, a cerveja estava gelada e deliciosamente silenciosa.

Steppenwolff

cachorro 02 Steppenwolff

Esse é Steppenwolff, meio pastor, meio policial, meio lobo. São metades demais para compor um inteiro, eu sei, mas ele se considera um cão complexo mesmo.

Embora prefira vagar durante a noite, onde sua pelagem lhe permite uma camuflagem natural, temos aqui uma foto dele no fim de tarde, talvez acordando para inciar sua habital circulada pelos botecos para ganhar restos de lanches.

Se valendo do porte avantajado, ele é considerado uma autoridade entre os outros cães da trindade, ganhando a confiança deles não só pela sua força, mas por sua aprofundada formação moral e intelectual.

Enquanto não inicia sua segunda pós-graduação, usa de seu apurado faro para ir de poça em poça de urina, sabendo de todos os cães da área.

Respeitador das leis, Steppenwolff sempre atravessa a rua usando a faixa, como podemos ver na foto onde ele se prepara para atravessar.

Quando algum motorista grosseiro reclama ou quer invadir a faixa ele não se altera: “Respeite a faixa, seu barbeiro medíocre”, pensa ele enquanto continua sua justa travessia.

Meus heróis

Johnie BlackA trindade é conhecida por seus cães de rua. Verdadeiras matilhas.

A maioria chega bonito e com pelo brilhoso, para com o tempo ficarem magros e doentes.

Andando por aí em bando, ou a sós, eles são meus verdadeiros heróis, onde cada dia é uma luta pela sobrevivência, errante, nômade, a busca por comida e disputa por território. Como não possuem nome nem história, resolvi nomeá-los e dar um passado a cada um deles.

Esse aqui dizem que tem um dono, que o chama de pretinho. Mas vive na rua, junto com os demais. Costuma circular, passear preguiçosamente no fim das tardes em frente ao doutor Buffet e urinar nos muros do Granville.

Já viu passar os anos de juventude e escolheu para si o nome de Johnie Black, por causa da marca de seu uísque favorito. Gosta de tomar seu uísque 12 anos acompanhado de um leitinho quente e um chinelo felpudo para roer.

Quando a embriaguez já é suficiente gosta de se deitar preguiçosamente na calçada, sentindo a brisa do fim de tarde e espiando por baixo das saias das jovens que passam.

Fisiologia

A trindade digere tudo: concreto, vidro, aço, pessoas.

É o estômago e intestino da cidade, tudo por aqui passa

e é transformado enquanto prossegue o destino tortuoso de suas ruas.

Em dias como hoje,

de trânsito constipado,

surge a pergunta:

se as ruas são as tripas,

os carros o que são?

Fluidades aquosas

Como toda anotação de bebum, esse blog corre o risco de virar um diário de histórias de boteco, por isso venho me controlando e falando de amenidades. Mas como tem tempo que não falo de nenhum bar, esse post não será sobre os filhos da puta que trafegam num dia como hoje dando banho nos pedestres da calçada com a água imunda da rua, que mistura água da chuva com esgoto devido à incompetência da CASAN que deixa a agua fluvial entrar na rede do esgoto a ser tratado, fazendo com que os esgotos transbordem e jorrem pela tampa, criando verdadeiros chafarizes de merda nos dias de chuva.

Não, esse post é sobre o “fluidades aquosas”, um boteco simpático que só vendia vinhos e funcionava ali perto da escola da polícia. Também atendia pelo nome de Novidades Líquidas e tinha um rol de personagens incríveis, como o homem planária, o bebum acrobata e a adolescente tarada.

Essa última, sem dúvida a personagem mais interessante, tinha lá pelos seus 15 anos, cabelo curtinho, roupas justas e medidas perfeitas. Era daquelas que fazia a conversa parar quando entrava no bar, sempre lotado de gente e cheio de fumaça. O teto era tão baixo e a fumaça dos cigarros tão densa, que podia-se fatiar a fumaça e servir pedaços, como se fosse um pudim.

Um dia conversava eu e meus velhos amigos numa mesa e ela se aproximou. A fumaça parecia abrir o caminho com deferência para que ela passasse e a respiração de todos na mesa parou quando ela nos abordou e inicou a conversa casual:

- Vocês tem fogo?

Respiração presa, mentes confusas sem saber o que dizer, o bar inteiro parado no tempo, congelado, esperando um desfecho da situação. Algo precisava ser dito. Alguém precisava dizer algo. Não sei porque esse alguém acabou sendo eu que finalmente disse:

- Não, minha filha, já acabou há muito tempo!

Ela olhou ressentida sem entender direito e foi embora, levando consigo toda sua perfeição que contaminava o momento. Eu também nunca soube porque disse aquilo, se foi o desespero de precisar responder algo, não importando o quão estúpido fosse, se mero desabafo ou uma piada doentia brotada em meu sub-consciente que até hoje nem eu entendi.

A bar fechou, nunca mais a vi, mas ao menos algum resquício dela na memória restou, tornando suportável a vida, apesar dos banhos de merda com água de chuva em dias como hoje.

A grande fuga

Esse é um nome clássico de um filme.

Mas aqui não falaremos do filme, falaremos de outra fuga da cadeia, dos irmãos Dário Berger e Fernando Elias. Este se escondeu num buraco por dois dias, igual ao Saddam, para fugir da justiça. Já o outro conseguiu, no silêncio da imprensa, tirar seu nome dos réus da Moeda Verde.

Enquanto os prefeitos irmãos metralha fogem impunes e casebres irregulares são derrubados, não começaram ainda as obras de destruição do shopping do mangue. Está na hora de iniciar a campanha: demolição já!

xilindró

um sujeito comprou e demoliu uma quadra de casas ali na frente da penitenciária.

vai sair um mega-empreendimento.

ninguém da comunidade sabe quando a penitenciária sai dali.

se perguntar a deputados ou vereadores, também não sabem.

prefeito e governador, nem fazem idéia.

líderes comunitários, menos ainda.

mas aquele sujeito sabe.

para ele, isso é apenas um dos custos programados em seu empreendimento.

ele já tem

com exatidão

a data em que os processos e projetos serão julgados e aprovados

e o gráfico com distribuição em curva normal do quanto de propina vai gastar mês a mês,

com cada autoridade do legislativo,

do judiciário

e do executivo.

para ele, isso é apenas uma etapa do cronograma.

ele sabe.