Planando

Maria Isabel tinha onze anos já. Vivera a vida inteira trancada no apartamento que ocupava um andar inteiro de um prédio na avenida beira-mar.
O local era amplo e com poucos e caríssimos móveis, que ela não podia tocar para não estragar. Conhecia vagamente o pai por ser aquele sujeito que chegava quando ela já estava dormindo e às vezes ela acordava e espiava ele pela fechadura. As normas da casa eram rígidas e oito horas tinha que estar dormindo já.
A mãe era aquela que de manhã cedo ela ouvia passar instruções à babá-governanta, que era quem supervisionava Maria Isabel e a casa.
Os empregados, embora muitos, não tinham permissão de falar com a criança, para não estragar sua criação. A tevê se ocupava de toda a vida social de Maria Isabel durante a manhã e de tarde lhe vinha a professora particular, que lhe ministrava todas as aulas.
A menina gostava mesmo era de ir na sacada no intervalos das 16 horas, aproveitar os vinte minutos de sol diários que lhe eram permitidos. Ela via o mundo lá embaixo e tinha muita curiosidade, misturada com medo.
Naquela tarde ela pegou uma folha branca do seu caderno e levou consigo. Rasgou a tela de segurança e arremessou a folha, assistindo lá do alto a doçura com que a folha deslizava no vento, brilhando sob o sol forte, alheia a todos os medos e horrores da cidade.
A folha sobrevoou a avenida beira-mar, passando pelos altos prédios, sobrevoou ruelas, casas do centro, voou horas sem chegar ao chão.
A folha não viu os crimes terríveis da cidade, o assassinato monstruoso para roubar um aparelho de som de um carro, o comerciante que se suicidava por não ter mais dinheiro de propina para dar às autoridades, os tiros que deixavam sangue e tristeza encharcando a terra e o asfalto, o maníaco que matava a esposa e enterrava no quintal, o infanticida que esquartejava os filhos para se vingar da esposa, o patrão que abusava das funcionárias após o expediente, os carros que, furiosos, descarregavam suas buzinas.
A folha nada disso viu, apenas sentiu o vento que gentilmente lhe carregava acima de tudo, acariciando suas faces macias de folha ainda virgem, não escrita. Apenas sentiu o calor do sol e a tranquilidade morna da tarde.
Maria Isabel sentia deliciada todas as alegrias da folha de papel enfim liberta, quando pulou ela também do alto da sacada lançando-se nos ares, para planar rumo a tranquilidade final.

3 Comments

  1. Rodrigo Véras
    Posted 19 04 09 at 23:00 | Permalink

    Não sei por que já esperava esse final. O melhor é que mesmo assim a crônica/conto ficou muito boa. Acho que sensação de inevitabilidade (ou o fato de sermos pessimistas natos, pelo menos eu sou um de curto prazo)ajuda a criar a atmosfera. Muito bom!!!

  2. Posted 20 04 09 at 0:52 | Permalink

    hehehe, obrigado, acho que realmente ao invés de uma surpresa no final tem um certo voyerismo mórbido com a morte que vai sendo anunciada quando ela tem curiosidade e medo lá debaixo e depois quando ela rasga a tela de segurança… pois certamente isso não seria necessário para jogar a folha.

    realmente ele tem um pessimismo total, o mundo lá embaixo é ruim, a solução dela viver isolada do mundo é ruim, e a forma de resolver o problema também é ruim, hehehe, quase parece que reescrevi a pequena fábula, do kafka. Mas a solução dela é narrada positivamente, então tem certo otimismo libertador de inspiração bem diversa em algo que deveria ser concebido como horrivel, o suicidio… melhor não deixar o suicidas lerem essa cronica :P

  3. Rodrigo Véras
    Posted 20 04 09 at 1:27 | Permalink

    Hehehe!! Acho que vai ser dificil,mas não custa colocar um aviso. Brincadeira.

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