Vivendo como recluso, trancado o dia inteiro escrevendo, lendo e escrevendo mais, tem seus perigos. O mundo começa a se tornar um lugar desagradável, irreal, sufocante. A arte começa a substituir a realidade, pois na realidade estamos sempre fadados ao fracasso, enquanto na arte é possível ir além daquilo que a realidade aprisiona.
E é por isso que me cobro de vez em quando uma saudável volta pelo centro da cidade. O centro, ainda que apinhado de uma assustadora multidão, rostos anônimos que vagueiam apressados sem saber para onde vão, reserva ainda agradáveis surpresas.
Em especial gosto de andar pelas feirinhas. Sentir o cheiro de queijo e embutidos frescos, frutas, verduras, barracas de grãos, de flores, de tudo que se possa imaginar.
Uma dessas em especial, me chama a atenção. Um jovem de boina e óculos, com ar de intelectual consumado, bate um sino atraindo clientes.
Paro para comer um pastel deliciosamente engordurado e quente numa barraca ao lado enquanto observo. O cara da boina terminou de atender clientes e começa a conversar demoradamente com outro. Pago o pastel e me aproximo deles para escutar sua conversa… vergonhoso ato de bisbilhotice, eu sei, ainda que irrefreável.
Ambos estão com longos volumes de papel datilografado na mão. São manuscritos de romances que nunca foram publicados e circulam unicamente na forma de trocas casuais entre escritores.
Acabo por fim sendo notado por eles, bisbilhotando a conversa, e se calam. Peço para ler os livros e levo pra casa.
Leio os dois romances num tapa, como se diz por aí. Duas ótimas histórias.
A primeira, do feirante, narra uma Florianópolis ao mesmo tempo real e mítica, assustadora, sempre recheada de nevoeiros e confusão, onde seus personagens precisam lutar sufocantemente para se deslocarem de um ponto ao outro, presos na história como um ciclo sem fim.
A segunda, do cliente, é um romance de cunho autobiográfico, narra o período de anos em que viveu como morador de rua em Florianópolis e São José. Brutalmente e fortemente real, ainda que impregnada das cores do delírio e da fantasia da experiência cotidiana, começando na tragédia que o leva às ruas e no desfecho trágico da mesma experiência.
Li emocionado as duas histórias e na semana seguinte eu estava lá, na feira, esperando por eles e implorando por mais histórias que eu pudesse ler. Dois romances que infelizmente nunca viram publicação, dado o marasmo do mercado editorial local. É das boas coisas que ainda se pode conseguir com um passeio no centro.
(publicado originalmente em Notícias do Dia, ano 3, n. 943, suplemento Plural, p.3. Florianópolis: 21-22/03/09.)