Acordamos naquele sábado com muita sede. Estávamos em cinco, com muito sono, e alguém falou em cerveja escura. Logo todos ficamos com vontade de tomar uma cerveja escura autêntica, daquelas meio amarga, cujo negror é dado pela quantidade de lúpulo na fórmula, não aquelas enganações que vendem por aí adocicadas, cuja cor é dada pela adição de caramelo. Nos conhecíamos há tanto tempo que nem nos lembrávamos mais de nossos nomes, apenas os apelidos: Cabelo, Mulambo, Curió, Tranca-rua e Pança.
Saímos os cinco zanzando pelo centro tentando achar algum lugar com cerveja escura boa. O calor estava demais, mesmo de manhã. Flanamos pela Felipe Schmidt, Trajano, Conselheiro, fomos em uma dúzia de barzinhos e mercadinhos da região e nada.
Chegamos na praça XV e encontramos um grupo de amigos nossos que tinham uma banda de metal. Eram cinco caras na banda e mais uns sete fãs que os acompanhavam. Contamos da nossa busca frustrada pela cerveja escura e eles decidiram nos acompanhar. Fomos os dezessete em busca de um gole de cerveja escura nas ruelas atrás dos Correios. Não achamos em nenhum lugar e a sede agora era dez vezes maior.
Acabamos por chegar na Hercílio Luz (a avenida, não a ponte!) onde encontramos um grupo de quinze amigos que iam para um show, que fora cancelado. Haviam alugado um ônibus e agora não sabiam o que fazer. Ficamos conversando e alguém lembrou de uma bodega no Ribeirão da Ilha que tinha a tal cerveja. Em quinze minutos estávamos nós todos dentro do ônibus indo pra lá.
Chegamos, descemos do latão e entramos na birosca. Trinta e dois caras barbudos, cabeludos, barrigudos, meia-idade, com roupas pretas e camisetas de bandas de rock. O tempo ensolarado começou a nublar. Duas mulheres começaram a chorar em pânico num canto escuro do bar, o dono mandou a filha se esconder no porão, um aleijado levantou a muleta em posição de luta e um professor de história se jogou no chão de joelhos pedindo por salvação, invocando Jeová, Shiva, Ctulhu e todos os deuses que acreditava.
Pedimos uma cerveja escura. Não tinha, acabara na véspera.
Todos frustrados entramos no ônibus e viemos embora. O aleijado voltou a andar, o professor de história se converteu a alguma religião, as mulheres passaram a vagar pelo mundo e o dono do bar até hoje não entendeu nada daquilo, mas conta sempre a história do dia em que acredita ter sido salvo da destruição por não ter cerveja escura no bar.
(publicado originalmente em Notícias do Dia, ano 3, n. 907, suplemento Plural, p.3. Florianópolis: 07-08/02/09.)
One Comment
Hehe!! Não sei de onde vem essas histórias. Muito bom.