Urinado

É como nos velhos tempos de bêbado de sarjeta. Acordo confuso e suado, molhado e melado com aquele cheiro forte nas narinas. Estou encharcado de urina.
É uma sensação que traz aquelas reminiscências da juventude: acordar na sarjeta de uma rua de paralelepípedos, sentindo cada ponta de cada pedra, com o corpo todo doído sem saber onde está, sabendo apenas que está imerso numa poça daquele líquido que não é seu, mas de algum transeunte que achou que seria uma boa piada fazer isso em cima do bêbado inconsciente.
Mas não é o caso. Os anos de juventude já se foram há muito tempo, assim como o odor das sarjetas. Abro os olhos vendo as paredes do meu quarto e evitando aquele espanto de acordar num local estranho que, segundo Kafka, poderia matar aquele que recém acorda.
Sinto o macio da cama e lembro dos anos em que acordava e olhava pro alto e via paredes e tetos estranhos. Ficava cinco minutos parado olhando tentando resgatar algum resquício de memória da noite anterior e lembrar onde eu estava. Ficava ouvindo aquela respiração pesada e tentando descobrir com quem eu estava na cama. Em seguida, como a memória não trouxesse alívio ou fagulha de compreensão eu me virava e olhava a pessoa do meu lado da cama tentando descobrir quem era. Eu nunca conseguia descobrir na hora.
Então eu me levantaria e veria se estava de roupa e procuraria meus óculos e minha carteira e depois de achar tudo começaria a concatenar as idéias com um pouco mais de calma. Geralmente a pessoa do outro lado era alguma bêbada habitual de bares, ou mulher de algum músico de bar ou estudante junkie que bebeu demais em uma noite de autógrafos de seu escritor favorito. Eu esperaria todo mundo acordar e me despediria e nunca mais os veria. Uma vez na praia da Pinheira acordei em uma cabana de hotel com um pessoal que eu nunca vira e que pareciam estar tão espantados quanto eu de eu estar ali. Agradeci a cortesia e fui embora dali o mais rápido possível antes que viessem perguntas ou, pior, respostas.
Mas felizmente não era essa a situação aqui. As paredes que eu via eram do meu quarto e eu estava em minha própria cama. A urina sobre a qual eu dormia não era minha, mas da menina ao meu lado, que dormia como um bebê, porque de fato ela recém saiu do estágio de usar fraldas à noite e tem grande orgulho disso, embora em raras vezes ela deixe escapar a urina na cama quando não a levamos no banheiro antes de dormir.
Tomamos banho e nos vestimos. Os anos de sarjeta já se foram, mas algumas coisas sempre voltam.

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