Zapeando

Os porquinhos rosados andavam felizes pela estrada florida quando surge, num salto, na frente deles, o senhor da guerra, com sua espada de sangue eterno, que nunca seca nem pára de jorrar. Antes que o primeiro porquinho possa esboçar qualquer reação ele desfere o golpe rápido, partindo o corpo ao meio e espalhando sangue e tripas pela estrada de terra, ao mesmo tempo que esmaga o crânio do segundo porquinho. Um terceiro porquinho tenta ainda fugir pulando de um barranco apenas para ser atravessada pela adaga cruel do senhor da guerra. Ele esboça um sorriso contemplando a matança ao seu redor e parte em nova jornada em busca de mais vítimas.
As crianças que até então viam felizes a história dos porquinhos rosados parecem agora em choque, sem reação. Pego o controle e decido mudar de canal.
Num programa de debates dois homens já muito velhos falavam sobre a liberdade sexual da mulher e o direito feminino ao próprio corpo. Que esdrúxulo, eu penso, como esses caras podem se arrogar ao direito de vir à tevê falar às mulheres sobre o direito delas ao corpo delas? O que havia de errado nessa tevê hoje? Mudo de canal novamente, terceira chance…
Finalmente algo agradável de se ver. Uma praia, com quatro mulheres lindas de biquíni conversando. Neste frio árido do inverno nada melhor do que se aquecer um pouco vendo um programa desses na tevê. Mas, de alguma forma, o áudio parecia ter alguma espécie de problema, porque elas conversavam sobre disfunção erétil e as últimas novidades em medicamentos e próteses para disfunção erétil no homem.
O que era isso? Um complô? Como eu poderia curtir aquele visual paradisíaco com essas mulheres falando sobre assunto tão amedrontador? Elas deveriam estar falando de seus corpos suando enquanto faziam ginástica de lingerie, ou algo assim.
Mudo de canal pela terceira vez. Parece uma espécie de filme, um juiz corrupto na suprema corte protege um banqueiro mafioso, que desvia dinheiro para o exterior, compra sessenta fazendas na Amazônia para desmatar e especular com a terra, se apropria do dinheiro de fundos de pensão e empresas de telefonia e é acobertado até mesmo por um ex-presidente que o considera um homem brilhante e investe seu dinheiro com o banqueiro. Essa quadrilha se infiltra no serviço público e começa a perseguir policiais e juízes que combatem a corrupção. Lá pelas tantas percebo que não é um filme, não é ficção, é apenas o jornal da noite.
Desligo a tevê e ponho ela na porta de casa. Amanhã mesmo ela vai pro conserto, tudo nela está trocado, há definitivamente algo de errado nela.

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