Fluidades aquosas

Como toda anotação de bebum, esse blog corre o risco de virar um diário de histórias de boteco, por isso venho me controlando e falando de amenidades. Mas como tem tempo que não falo de nenhum bar, esse post não será sobre os filhos da puta que trafegam num dia como hoje dando banho nos pedestres da calçada com a água imunda da rua, que mistura água da chuva com esgoto devido à incompetência da CASAN que deixa a agua fluvial entrar na rede do esgoto a ser tratado, fazendo com que os esgotos transbordem e jorrem pela tampa, criando verdadeiros chafarizes de merda nos dias de chuva.

Não, esse post é sobre o “fluidades aquosas”, um boteco simpático que só vendia vinhos e funcionava ali perto da escola da polícia. Também atendia pelo nome de Novidades Líquidas e tinha um rol de personagens incríveis, como o homem planária, o bebum acrobata e a adolescente tarada.

Essa última, sem dúvida a personagem mais interessante, tinha lá pelos seus 15 anos, cabelo curtinho, roupas justas e medidas perfeitas. Era daquelas que fazia a conversa parar quando entrava no bar, sempre lotado de gente e cheio de fumaça. O teto era tão baixo e a fumaça dos cigarros tão densa, que podia-se fatiar a fumaça e servir pedaços, como se fosse um pudim.

Um dia conversava eu e meus velhos amigos numa mesa e ela se aproximou. A fumaça parecia abrir o caminho com deferência para que ela passasse e a respiração de todos na mesa parou quando ela nos abordou e inicou a conversa casual:

- Vocês tem fogo?

Respiração presa, mentes confusas sem saber o que dizer, o bar inteiro parado no tempo, congelado, esperando um desfecho da situação. Algo precisava ser dito. Alguém precisava dizer algo. Não sei porque esse alguém acabou sendo eu que finalmente disse:

- Não, minha filha, já acabou há muito tempo!

Ela olhou ressentida sem entender direito e foi embora, levando consigo toda sua perfeição que contaminava o momento. Eu também nunca soube porque disse aquilo, se foi o desespero de precisar responder algo, não importando o quão estúpido fosse, se mero desabafo ou uma piada doentia brotada em meu sub-consciente que até hoje nem eu entendi.

A bar fechou, nunca mais a vi, mas ao menos algum resquício dela na memória restou, tornando suportável a vida, apesar dos banhos de merda com água de chuva em dias como hoje.

One Comment

  1. Veritas
    Posted 13 03 08 at 0:14 | Permalink

    Porra, eu lembro de um ruiva de 19 anos e de cabelos compridos. E lembro de outra pessoa dizendo a célebre frase. É assustador quando as memórias vão se fundindo e se confundindo.

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