Caboclo Ventania

Sempre que passo pela frente da tenda do Caboclo Ventania, próximo ao terminal da trindade, sinto uma espécie de alegria. É verdade, enfim, que existem alguns brasileiros nessa terra.

Para mim os brasileiros sempre foram um povo exótico, majoritariamente formado por cariocas viciados em samba e futebol, paulistas pagodeiros e baianos pulando axé. Saiu disso, já não é mais brasil, ao menos não o brasil que passa na tevê.

Mas principalmente sábado a noite, a folia corre solta na tenda. Tambores tocam sem parar, cantorias, uma euforia que deixa qualquer carnaval no chão. Acho bonito aquilo. Mesmo não sendo alguém religioso, acho bonito aquela loucura exótica. Então ligo a tevê e sou confrontado com a aparição abominável da propaganda de procissão no centro, aquela figura mofada, com rosto sofrido, espalhando uma moral que prega o sofrimento humano, em prol de uma improvável salvação extra-terrena.

Acho triste isso, triste demais. E o mais triste é que não são só os veículos de mídia privados (embora concessões públicas) empenhados em divulgar uma religião em detrimento de todas as outras: o Estado, que deveria ser laico, também comparece injetando dinheiro. É uma falta de vergonha completa, o velho saque dos cofres públicos milenarmente executado pelos católicos.

Daí lembro da tenda do Caboclo Ventania, que nunca roubou dinheiro público como a ICAR e vai de vento em popa. Então concluo que a trindade é exemplo para o país. E como tem dinheiro público também na reforma da catedral, e o estado é laico, é inevitável concluir que o correto seja ela passar para as mãos do estado e ser usada por todos os cultos e crenças, afinal foram todos que financiaram, ainda que involuntariamente, aquela reforma custeada com dinheiro do Estado. Caboclo Ventania, ainda vamos pregar umas galinhas no altar daquele prédio mofado que enfeia o centro, chamado de catedral! É a trindade expandindo seu domínio. Tam-tam-tam (música de suspense).

One Comment

  1. Posted 08 03 08 at 16:26 | Permalink

    Tens razão Fonjic, e´um absurdo que o poder público financie somente uma religião. Mas este (infelizmente) é o retrato do povo brasileiro: carola, moralista e devedor.
    abs, Leila

Post a Comment

Your email is never published nor shared.