Eram 3 da manhã quando resolvi parar num ponto de ônibus para fumar o último crivo. O último do maço e da noite. Não sei porque, parece que fumar e caminhar são coisas que não combinam. Fiquei entretendo minha vista com um belo rato que zanzava do outro lado da rua. Aquele é Jonas, logo pensei, como se pudesse ver em seu peito peludo e marrom o crachá com nome.
Ele correu um pouco de um lado para o outro brincalhonamente, até que se assustou com um carro e correu para sua toca. Logo saiu e entrou em outra. Atravessei a rua e constatei ao todo sete buracos na frente daquele prédio de apartamentos. No site das imobiliárias consta que o condomínio daquele prédio está entre 250 e 300 pila, no entanto os ratos parecem estar livres da taxa e imperturbados.
Constatei que em apenas um trecho a calçada havia rachado no espaço entre as tocas, enquanto nos outros ela se manteve firme, mesmo ali sendo trajeto dos veículos para garagem.
Concluí que nossos ratos urbanos estão evoluindo. Qual engenhosa tecnologia de escoras esses ratos não devem utilizar em seus túneis modernos? São tocas que não apenas lhes propiciam um lar, mas uma imensa rede de trafego subterrânea.
Há uma trindade embaixo daquela que conhecemos. Uma trindade de gigantescos túneis projetados por uma civilização de ratos que acompanha a humanidade desde seus primórdios. Os ratos vêm cumprindo dupla função social, de comer os dejetos que geramos e de servir de comida aos nossos cães e gatos de rua. Quando o inverno nuclear chegar, será finalmente a eles que recorreremos para nossa salvação, abrigados por eles no imenso labirinto construído sob nossas casas, com sábia antecipação e planejamento.
Impressionante mundo moderno em que vivemos.