Quebrado

A cabeça doía, o estômago revirava e eu acordara no meio da festa com uma sede de ressaca braba. Era uma daquelas festa de fins dos anos 60, só que quarenta anos depois. A única coisa que unia as duas épocas era a imortal frase do diabo de Sartre: O mundo está fudido. Mas mais fudido que o mundo estava eu. A única coisa mais próxima de bebida naquele fim-de-festa alucinado foi um treco que batizaram de coca-cola, que consistia em cheirar uma carreira de pó e depois dar três puxadas de ar num saco de cola.

Era no alto de um morro uns quatro quilômetros do posto de gasolina que era o ponto mais próximo de venda de bebida. Era 4 da manhã e fazia frio pra caralho e eu ia ter que andar numa rodovia sem lugar pra pedreste e pouco acostamento, mas era a vida.

Comecei a descer o morro, concentrado em dilemas ancestrais. Fazia já uns quinze minutos, quando notei, ao fazer uma curva, uma bunda rebolante 100 metros a frente. Magra, cerca de um metro e sessenta e cinco. Me concentrei fundo naquela calça jeans enterrada e ela acabou por sentir meu olhar intrusivo. Olhou para trás, para mim, e sorriu.

Era uma chinesinha, ou vietnamita, alguma coisa assim. Desci mais contente por alguns minutos, acalentado do frio pelo teatro mental em que eu finalmente alcançava a dona da bunda e íamos para um lugar mais reservado para as devidas apresentações.

Mas a porra de morro era mais cheia de curvas do que mulher de cem quilos. Logo numa curva dessas a perdi de vista. A noite não ia ser tão ruim assim, eu pensei, talvez acabasse me dando bem e achando algum jeito de agarrar a chinesa. A palavra certa, a abordagem certa, que aniquila na mulher o livre arbítrio e a obriga a se nos entregar. Há uma para cada mulher e situação.

Eu ia pensando nessas coisas vagas quando notei um descampado à esquerda da estrada, pela margem onde eu vinha. Uma área desmatada que invadia o mato, onde talvez um dia houvera um bar e agora era só lama. Havia uma pedra da qual apenas o topo aparecia, fazendo uma montinho de 15 centimetros.

Subi na pedra. Sei lá por que motivo subi na pedra e fiquei olhando a estrada e talvez meu destino fosse outro se não o tivesse feito. Dava cerca de dois metros de largura aquela elevação, provavelmente de uma gigantesca rocha enterrada. Nisso saiu um carro preto da pista. A música era alta, Renato Russo cantando em iteliano. Dois ocupantes bêbados e gritando. Manobraram o carro, viraram de frente pra mim e aceleraram. Eu não sabia o que estava acontecendo, até ouvir o motorista gritando:

— Vamos te matar, seu proletário filho da puta! Meu pai é PM!!

Fiquei em cima da pedra, na esperança de que ela pudesse de alguma forma me salvar, ou dar alguma vantagem sobre meus inimigos. Quando o carro chegou perto pulei sobre o capô. A idéia era aproveitar o ganho de altura em cima da perdra para rolar sobre o carro e cair de pé. É claro que tudo parecia muito fácil, até que me estourei todo rolando sobre o carro, metal e vidro colidindo a 100 por hora, para por fim cair no chão de boca na areia, imóvel, doído, como se nada mais restasse para quebrar.

Fiquei imóvel, esperando a vez de meu inimigo mover suas peças. Se eu corresse, me matavam de vez, se eu ficasse quieto, talvez se fossem, se eles viessem, aí sim eu tentava me mexer.

De alguma forma insana, a coisa funcionou, e fiquei parado sem nem resperiar, eles deram um rodopio no carro e voltaram pra pista gritando e rindo.

Levantei sentindo dores em todas as partes do corpo, até mesmo as que eu nem sabia que existiam. Estava tudo acabado. Bati a sujeira da roupa e olhei desafiadoramente para o asfalto, como se eu fosse o anônimo sobrevivente de um combate épico.

Mal faço isso e saí outro carro. Um gol bege com cinco caras dentro.

— Tá olhando o que, otário?

— Nada, meu, na boa.

O carro para e os caras começam a sair dali de dentro. Eu posso estar quebrado e e bêbado, fodido num fim de mundo desconhecido, mas eu dou conta dos cinco.

Foi a idéia mais idiota que me passou na cabeça, pois logo começaram a tirar arma que não parava mais. Um deles tinha um pistolão velho, dois tinham revólver, o motorista saiu carregando uma escopeta e o que mais me assutou foi o cara de dois metros que empunhava apenas um machado.

— Qualé, filho-da-puta, tu vai morrer hoje, riquinho de merda!

Tentei pensar rápido e me defender, dizer alguma coisa, mas o cara da escopeta logo encostou o trabuco nos meus dentes e disse que eu ia morrer, que era melhor deitar logo de cara no chão e começar a beijar poeira.

Dos vários anos de treino em lutas, uma única coisa aprendi, não existe golpe mais rápido ou forte que um trabuco. Que cinco caras armados então, nem pensar.

Uma espécie de pânico dominou meu corpo. Um cérebro gritava descontrolado para meus nervos obedecerem e me transformava num automato que deitou no chão sem dizer nada, o outro tentava desesperadamente se separar de mim mesmo e estabelcer uma nova ordem na qual os pensamentos pudessem fluir e, de alguma forma, modificar aquela fatalidade. Pura perda de tempo, mera tentativa da mente de negar a morte, que por sua vez já é negação de tudo, como se a negação da negação de tudo pudesse resultar num algo.

Era frio de quatro graus, mas eu suava na merda do chão sujo aguardando a morte enquanto os caras riam e decidiam quem ia matar.

Foi nisso que, do nada, apareceu minha chinesa gritando.

— Parem, parem, não façam isso! Vem cá, eu dou pros cinco, mas deixem ele ir!

Os caras se empolgaram com a idéia, ma mandaram vazar e levaram a chinesa pro canto e começaram a se revezar na curra. Ela foi resignadamente me lançando um sorriso acanhado.

Eu realmente nunca consegui entender o que houve ali. Se ela sentira minha falta secando o rabo dela, se ela sempre sonhara em ser currada por cinco caras na madrugada, ou se era uma completa louca que se afeiçoara por mim e decidira, num heroísmo torto, me salvar daquele modo.

O fato é que graças a ela estava vivo. Limpei novamente a roupa e saí andando, descendo a estrada, tentando não ouvir os gritos de empolgação dos cinco que se revezavam sobre ela. Talvez eu devesse sentir ódio e partir para uma vingança contra eles. Talvez eu devesse sentir medo e correr como uma colegial desnuda num hospício em meio aos carros, talvez eu devesse parar num canto e começar a tremer e chorar de raiva ou impotência, ou talvez me sentir orgulhoso por ela ter vindo me salvar.

Mas eu não sentia nada disso. Não sentia nada mesmo. Apenas uma dor gigantesca no corpo todo que anestesiava as dores morais, e uma frustração profunda porque no fim das contas comeram a chinesa, e não fui eu.

Post a Comment

Your email is never published nor shared.